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Semana Mundial da Alfabetização

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Mudanças e desafios do ensino remoto

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A adoção do ensino remoto durante a pandemia do coronavírus (COVID-19) trouxe à tona dificuldades dos atores do sistema de educação público com a prática. Secretarias de educação tiveram de se adaptar para oferecer aulas pela internet, pela TV, por aplicativos, por mensagens e por redes sociais. Escolas e professores tentam manter contato com os alunos. Estudantes e familiares reclamam da falta de acesso à internet, da falta de local adequado para estudos em casa e da falta de contato com os educadores.
 
Diante deste cenário, o CNE (Conselho Nacional de Educação) aprovou parecer que abriu a possibilidade de cômputo de atividades não presenciais (até 30%) para o cumprimento da carga horária mínima anual. Confira o parecer no Observatório da Educação do Instituto Unibanco. Depois disso, muitas das secretarias decidiram contar o ensino remoto como parte do ano letivo. Especialistas, educadores, pais, entidades, sindicatos e o Ministério Público, no entanto, discutem se a aprendizagem será efetiva. Por isso, há disputas na Justiça para decidir se as aulas a distância durante a quarentena poderão mesmo ser contabilizadas no calendário escolar. (Veja discussão em vídeo entre especialistas sobre o impacto da decisão do CNE).
 
Como a pandemia avança de maneira diferente dependendo da região do país e até mesmo dentro de um mesmo estado, é razoável pensar,  diante de todos os cuidados que precisam ser tomados para que as escolas não virem foco de contaminação, que alunos ainda vão ter que conviver por mais tempo com as aulas remotas. Com isso, o que era emergencial precisa ser encarado de forma mais consistente, de olho nos impactos de longo prazo no ensino médio.
 
De acordo com Lúcia Dellagnelo, diretora-presidente do CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira), a experiência atual de ensino remoto mostra que a política educacional precisa contemplar o ensino híbrido como modalidade oferecida por todas as escolas. “Agora foi a pandemia, mas podem haver eventos climáticos e outros motivos para ter que fechar a escola. Além disso, o ensino híbrido amplia as experiências de aprendizagem dos jovens e aproxima a educação da maneira como vivem hoje, permeada pela tecnologia. A escola precisa ser um ambiente mais contemporâneo”, diz Lúcia.
 
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Essa defesa pelo que se conhece como ensino híbrido também é compartilhada pela consultora, pesquisadora e professora da CESAR School Walquíria Castelo Branco, com alerta de que antes será preciso identificar o que funciona para os estudantes. “Tem que trabalhar a parte de projetos, ver o que motiva os alunos intrinsecamente, para que eles se mantenham conectados com a escola, com o processo de aprendizagem. Isso vai exigir do professor e do aluno o desenvolvimento de competências e habilidades que são muito sofisticadas, tanto para o aluno aprender como para o professor ensinar”, diz Walquíria.
 
Para dar conta desta tarefa ela defende a necessidade de se ouvir todos na escola e na comunidade para construir uma escola mais acolhedora. Walquíria também ressalta que muitos estudantes enfrentam dificuldades com as habilidades de aprendizagem autodirigida, com a função executiva, a motivação para aprender online e para fazer autogestão do tempo. “Tudo isso, todas essas competências e habilidades são mais exigidas quanto mais vulnerável é a população. Então mesmo a educação híbrida não exime o educador, o profissional, a escola e o grupo de professores de pensar essa jornada para que se consiga desenvolver essas competências e habilidades necessárias. Precisa entender as motivações dos alunos, a capacidade de autogestão e etc”, diz.
 
Personalizar e responder às necessidades dos alunos exige um leque de mídias para que a inequidade de oportunidades não seja ampliada. Quando se olha para o diagnóstico abaixo, ilustrado pela pesquisa TIC Educação, ainda do período pré-pandemia, é possível entender a urgência.
 
Diagnóstico
 
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Dados da pesquisa TIC Educação 2019 sobre acesso e uso de tecnologias mostra que os alunos do ensino médio usam mais as tecnologias do que os alunos mais novos, de acordo com a coordenadora da pesquisa, Daniela Costa. O estudo aponta que, entre os alunos do 2º ano do ensino médio, 93% são usuários de internet. Uso de aplicativos de mensagem instantânea (98% afirmam realizar esta atividade), uso de redes sociais (96%) e pesquisas na internet por curiosidade ou por vontade própria (95%) são os mais citados.
 
Grande parte dos alunos do 2º ano do ensino médio afirma utilizar a internet também para aprender a fazer algo que não sabia ou que tinha dificuldade em fazer (94%), ler ou assistir a notícias (91%) e ler um livro, um resumo ou um e-book (65%). No entanto, enquanto 95% destes alunos afirmam assistir a vídeos, programas, filmes ou séries na internet, 57% dizem postar na rede um texto, uma imagem ou um vídeo que ele ou ela fez.
 
“Apesar de os dados evidenciarem um uso intenso das tecnologias por estes jovens, a qualidade deste uso está condicionada por diversas variáveis que impactam nas oportunidades de acesso às tecnologias, de desenvolvimento de habilidades e de participação nas dinâmicas da cultura digital. Por exemplo, 33% dos alunos de escolas estaduais urbanas, instituições que geralmente atendem alunos de ensino fundamental ciclo 2 e ensino médio, não possuem computadores e nem tablets no domicílio (percentual que é de 39% considerando-se o total de alunos de escolas públicas urbanas, incluindo escolas estaduais e municipais)”, explica Daniela.
 
O uso do telefone celular para acesso à internet é citado por 98% dos alunos desta faixa etária, tanto de escolas públicas quanto particulares, porém, 19% dos alunos de escolas estaduais acessam a rede exclusivamente pelo telefone celular, sendo que este percentual entre os alunos de escolas particulares é de apenas 3%, segundo Daniela.
 
Apesar de 98% dos alunos do 2º ano do ensino médio afirmarem que utilizam a internet para realizar trabalhos escolares, 61% diz acessar a rede na escola, de acordo com a coordenadora do estudo. Entre os estudantes de escolas públicas urbanas, 37% afirmavam acessar a internet na escola. Segundo diretores destas instituições, apenas 63% delas contavam com acesso à rede na sala de aula e 50% na biblioteca ou sala de estudos para os alunos.
 
Direito básico
 
Muitos países já declararam o acesso à internet como um direito social básico, como água e luz. Ficar sem acesso faz com que a pessoa deixe de participar de parte importante da sociedade, segundo Lúcia, diretora-presidente do CIEB. “Antes da pandemia, estávamos focando em conectar escolas com banda larga para terem atividades pedagógicas online. A pandemia trouxe essa discussão para outra dimensão. Os estudantes precisam se conectar também para ter direito à aprendizagem. Agora vamos precisar reforçar e fortalecer essa mensagem no Brasil.”
 
Por isso, Lúcia defende um redesenho de políticas públicas. “Pode ser uma bolsa internet para baixa renda, compra subsidiada por professores e famílias. É preciso vontade política e o redesenho do programa nacional de educação. Parte do programa do livro didático precisa ser redirecionado para tecnologias educacionais. O MEC precisa de uma área de tecnologia educacional para desenhar programas e políticas sobre acesso e se alinhar a outras áreas do governo, como o Ministério da Ciência e Tecnologia, que cuida da fibra ótica do Brasil. São necessárias ações de infraestrutura, por isso precisa de vários órgãos para garantir o acesso e vontade política”.
 
O acesso à internet também é necessário para cumprir a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), reforça Walquíria Castelo Branco, consultora do CESAR School. “Se o acesso à tecnologia não estiver garantido dentro das escolas, fica difícil cumprir a quinta competência da BNCC, que diz respeito à utilização de tecnologias digitais de informação e de comunicação de forma crítica, de forma que se tenha uma compreensão de coisas relacionadas às leis de segurança de dados, que os estudantes saibam como funcionam os algoritmos de busca”.
 
Além da conexão, é preciso levar a inovação para dentro das escolas de ensino médio por meio da formação dos professores, segundo a pesquisadora. “Uma formação voltada para uma educação transformadora, que envolva a comunidade e os alunos com os aspectos sociais, econômicos, da violência, toda essa complexidade, que as disciplinas isoladamente não conseguem dar. Uma formação que permita sair da lógica das séries, das disciplinas, das aulas de 50 minutos. Uma formação que utilize as metodologias necessárias para habilitar as pessoas para que elas tracem suas estratégias e promovam as suas mudanças, levando para a comunidade as coisas que têm valor para a aprendizagem daquela comunidade, que ajudem a entender o que aquela comunidade precisa e a construir as soluções para isso.”
 
Muitos professores e gestores escolares se conscientizaram da importância das tecnologias nos processos de ensino e de aprendizagem, de acordo com Daniela Costa, justamente por vivenciarem os desafios em adotar o ensino remoto durante a quarentena. “Mas o grande aprendizado deste período está realmente nas diferenças de contexto entre alunos, professores e escolas. As desigualdades são multidimensionais, o que faz com que sejam mais intensas para alguns alunos do que para outros, mesmo entre estudantes que frequentam a mesma escola e moram no mesmo bairro, uma vez que são determinadas por suas condições sociodemográficas. De acordo com os dados, os alunos de escolas públicas enfrentam de forma mais intensa estes desafios.”
 
FONTE: PORVIR.ORG